Porque é que se ouve o comboio à noite e de dia não?
A explicação que toda a gente dá é o silêncio, e não está errada — só não é a principal. A principal é que à noite o ar dobra o som para baixo, e de dia dobra-o para cima.
O som anda mais depressa no ar quente: cerca de trezentos e trinta e um metros por segundo a zero graus, e mais sessenta centímetros por segundo a cada grau. Durante o dia, o chão apanha sol e aquece o ar que está mesmo por cima dele, portanto a camada de baixo é a mais rápida. A frente sonora, que avança mais depressa em baixo do que em cima, vai inclinando para cima — e passa-te por cima da cabeça. A quinhentos metros da linha há uma zona de sombra onde o comboio simplesmente não chega.
À noite inverte-se. O chão arrefece a irradiar para o céu e arrefece o ar encostado a ele, ficando mais frio do que o que está uns metros acima. Agora a camada lenta é a de baixo, e a frente sonora curva para o chão: o som que devia perder-se no céu é devolvido à terra, salta, e volta a ser devolvido. É por isso que ouves um comboio a quilómetros de distância numa noite fria e limpa, e no mesmo sítio, à mesma distância, não ouves nada às três da tarde.
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